No auge de seus 33 anos, a influenciadora e modelo Mariana Michelini decidiu realizar um procedimento de harmonização facial para melhorar sua aparência e elevar sua autoestima, um aspecto essencial para sua carreira. No entanto, o que deveria ser uma melhoria acabou se tornando um pesadelo.
Após passar pelo procedimento realizado por um profissional sem qualificação, Mariana sofreu uma deformação severa nos lábios, perdendo a parte superior. O procedimento aconteceu em 2020, na cidade de Matão, interior de São Paulo.
“Minha vida parou e eu achei que fosse morrer. Além de afetar minha carreira, destruiu minha autoestima. Passei um ano convivendo com dores intensas e tentando reverter o inchaço. Sempre precisei usar máscara, e isso me afetou profundamente”
Mariana Michelini
O caso de Mariana reflete uma realidade preocupante no Brasil: o aumento do número de complicações decorrentes de procedimentos estéticos realizados por profissionais sem a devida qualificação.
Segundo o Conselho Federal de Odontologia (CFO), o número de cirurgiões-dentistas especialistas em harmonização facial cresceu 50% em 12 meses. Em dezembro de 2023, havia 2.675 profissionais registrados na área, número que saltou para 4.012 em 2024.
Entidades do setor reforçam a necessidade de fiscalização mais rigorosa para evitar complicações graves e até mortes de pacientes.
A presidente da Associação Brasileira de Ortodontia e Ortopedia Facial (ABOR), Carla Derech, orienta a população a buscar por profissionais habilitados.
“A ABOR recomenda que os pacientes sejam tratados dentro da melhor evidência científica trilhando um caminho que estimule a ética e a atenção a saúde da população. Procure boas referências como seu dentista de confiança, o qual pode indicar um bom especialista para cuidar da saúde de seu sorriso e instituições que objetivem proteger a população”.
Especialistas ouvidos pela CNN apontam que a crescente oferta de cursos de estética por diversas instituições de ensino, aliada à alta demanda por procedimentos, têm levado à proliferação de profissionais sem qualificação adequada.
A dentista especialista em Ortodontia Renata Salum destaca que a especialização é essencial para o profissional estar preparado para lidar com possíveis complicações e reduzir riscos durante os procedimentos.
“É preciso considerar que muitos dos cursos disponíveis no mercado não têm qualidade ou credenciamento adequado. Algumas instituições oferecem formações sem a infraestrutura necessária ou sem uma base prática sólida. Isso pode deixar o profissional despreparado para lidar com situações complexas que surgem durante os procedimentos”, afirma Salum.
Anvisa tenta evitar impactos
Para reduzir o número de procedimentos malsucedidos, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) lançou uma página na internet com orientações ao público.
O portal reúne informações sobre produtos aprovados pela agência, além de listar aqueles proibidos. Também oferece diretrizes sobre como relatar problemas ou denunciar irregularidades.
Além disso, a Anvisa divulgou uma nota técnica para orientar clínicas sobre normas sanitárias. No documento, a agência classifica os estabelecimentos em duas categorias:
- Serviços de saúde: exigem que os procedimentos sejam realizados por profissionais da área médica ou sob sua supervisão;
- Serviços de interesse para a saúde: não exigem formação em saúde para a realização das atividades.
A agência reforça que a profissão de esteticista não é reconhecida como uma categoria da área da saúde, devendo seguir normas específicas de segurança, higiene e descarte de resíduos. Além disso, destaca que o uso de medicamentos em clínicas estéticas sem supervisão médica é proibido.
Jornada de recuperação
Os impactos físicos e emocionais de um procedimento estético malsucedido são profundos. No caso de Mariana, sua reconstrução facial começou somente quatro anos depois, em novembro de 2024.
“Não desencorajo ninguém a fazer procedimentos estéticos, mas recomendo que pesquisem bem antes de escolher um profissional qualificado”, alerta a influenciadora.
A reconstrução foi realizada em etapas: primeiro, foi criado o meio do lábio superior, exigindo que Mariana ficasse 20 dias com a boca costurada. Na segunda fase, sua língua foi costurada à região afetada para auxiliar na cicatrização. O mesmo processo foi repetido no outro lado do lábio.
A quarta etapa foi dedicada à reconstrução do lábio inferior. O tratamento durou cerca de um ano e foi finalizado em dezembro de 2024, na cidade de Araranguá, em Santa Catarina. Apesar das dificuldades, Mariana não perdeu o paladar, mas relata que sua língua ficou um pouco menor.
Agora, sua próxima etapa será um acompanhamento dermatológico para refinamento estético, incluindo preenchimento com ácido hialurônico para restaurar o volume dos lábios.
“Sempre mantive o pensamento positivo e continuo assim. Hoje estou melhor, já não preciso mais usar a máscara e estou tentando retomar minha vida social. Sigo acreditando haver uma luz no fim do túnel. Estou sendo cuidada por grandes profissionais e tenho certeza de que tudo vai melhorar cada vez mais”, finalizou Mariana.